Quando a Bica tem que mostrar quem é,
Tem sempre alegria até ao fim
À rua não vem quem lhe bata o pé,
Onde ela chegar é sempre assim.
– Frederico de Brito, “A Marcha da Bica 

Rua da Bica de Duarte Belo

Rua da Bica de Duarte Belo

A Bica são pouco mais de 200m que se expandem por 500 anos de história e pelos vistos, 3 Bicas. Cinco minutos para quem sobe no elevador, ou alguns 15 a 20 minutos – mais a inevitável gota de suor – aos que se aventuram a pé. A cada ombreira ou varandim sente-se orgulho e perseverança. Se os outros bairros lisboetas são alimentados por histórias de heróis e lendas locais, a Bica é feita do sentido de oportunidade, criatividade e empreendedorismo. Cheira a fruta, mar e festa. Apesar de estarmos em Dezembro, os varandins estão ainda decorados com fitas coloridas, usadas para as Marchas, e as laranjeiras que baptizam a Travessa com o mesmo nome, estão carregadas! A Sul, o rio, sempre presente, relembra as gerações de outrora que aqui habitavam, com profissões ligadas ao mar, tais como pescadores, varinas, mareantes e aguadeiros. Às inúmeras portas de tascas e mercearias que aqui operam há gerações, rompem novos e modernos negócios: cabeleireiros, cafés, bares, lojas de conveniência, hostels, esplanadas, lojas de estampagens, centros culturais, e outros.

Travessa da Laranjeira

Travessa da Laranjeira

Do exíguo espaço que lhe conferem as fronteiras e ramificada por uma mão cheia de Travessas e de outros tantos Largos e Calçadas, a pitoresca Bica divide-se por três Bicas pequenas, que juntas fazem uma Bica só: a Bica de Cima, a Bica de Baixo e a Bica do Lado de Lá do Elevador. Depois há a Calçada da Bica Grande, a Calçada da Bica Pequena, a Rua da Bica do Duarte Belo e até o Chafariz da Bica da Boa Vista, que mesmo estando agora em São Paulo, veio da Bica que falamos. E o Elevador da Bica. Afinal, a Bica é grande!

Mas que bicas são estas? Não é difícil encontrar a resposta, que pelos vistos todos na Bica conhecem: Duarte Belo (que dá nome à rua principal) tinha umas terras com bicas (fontes). Uma dessas bicas foi re-alocada (quando foram vendidos uns terrenos, ainda na era quinhentista) para aquela que agora é a Rua da Boavista (no seguimento da Rua de São Paulo), dando-lhe o nome: é que a água dessa bica tinha elevadas propriedades sulfatadas, e que curava a quem sofria de males da vista. Recomendava-se na época a que lá lavassem os olhos quem sofresse desses males. Inicialmente, quando recebeu a bica recém importada do bairro, chamava-se “Rua Direita da Boa Vista da Bica dos Olhos”, mas hoje é apenas “Rua da Boavista”. Essa bica ainda existe (apesar de já não ter água), e pode ser vista junto ao nº32 da Rua da Boavista, no sopé da Bica. Havia ainda a Bica Grande, até há não muito tempo atrás, um grande tanque onde as mulheres lavavam a roupa e os garotos se banhavam, e que deu nome à Calçada e Escadinhas da Bica Grande. E uma terceira, na Calçada da Bica Pequena.

Havendo tanta curiosidade sobre a história e os recantos da Bica, recomendo o percurso por baixo, com começo na Rua de São Paulo, nº234. A imponente entrada para o edifício amarelo de 5 pisos tem com um portão verde coroado com um grande letreiro em semi-circulo, onde se lê “Ascensor da Bica”. É deste edifício setecentista, ladeado discretamente pelas duas Calçadas – à esquerda, a da Bica Pequena, e à direita, a da Bica Grande – que parte o ascensor que percorre o bairro, rumo ao Calvário, e que domina hoje a paisagem da Bica. Este ascensor, promovido a monumento em 2002, já foi estrela de intervenções artísticas: Vhils decidiu espelhá-lo em 2010, e em 2013 ganhou um padrão semelhante à calçada Portuguesa; já foi também estrela de cinema, tendo aparecido (entre outros) no Lisbon Story, de Wim Wenders. Actualmente encontra-se coberto da intervenção “não-tão-artística” dos que por ali passam: assinaturas de marcadores e restos de autocolantes em camadas que cismam em sobrepor-se ao tempo e à cultura do Bairro. Tal como o bairro, o ascensor também teve a sua cota parte de ocasiões catastróficas: em 1916, devido a um problema nos travões, desceu desenfreadamente a rua toda, espatifando-se contra o edifício da Rua de São Paulo. Foi tão caótico que levou 7 anos para reparar os danos. Em tempos mais próximos, nos anos 90, um problema com os travões, fez com que a história se repetisse, mas já sem o drama ou a espetacularidade do primeiro incidente. Contudo, nunca fez vitimas. Hoje, já com maior cautela, encerra cerca de 30 dias por ano, para a devida manutenção, algures no Inverno. Sobe e desde a Rua da Bica de Duarte Belo a cada 15 minutos, levando nos seus velhos assentos em pele verde escura os passageiros-turistas sorridentes. Tornou-se numa espécie veículo exibicionista, que posa para as fotografias, envergando ora o seu “amarelo carris”, ora a vestimenta artística que lhe for atribuída. Subir ou descer a Calçada da Bica de Duarte Belo no ascensor é uma ode à história do bairro.

"Vai Vem"

“Vai Vem”

À saída da paragem na Rua de São Paulo, o pequeno túnel está decorado com azulejos cinéticos e monocromáticos, da autoria de Catarina e Rita Almada Negreiros, um projecto integrado na requalificação da Bica que teve lugar em 2013. A obra chama-se “Vai Vem”, em honra do sistema de funcionamento do elevador. Já no Largo de Santo Antoninho, mais intervenções contaram com o apoio da Câmara Municipal: a mais notória é um grande mural, também monocromático, com a inscrição “A BICA É LINDA”. E do outro lado dos carris, umas novas tiras metálicas para as rodas das bicicletas acompanham a longa escadaria que sobe das Escadinhas da Bica Grande, facilitando assim o seu transporte para quem sobe ou desce a pé. Este foi um dos vencedores dos Projectos Participativos da Cidade, onde os cidadãos podem votar nos projectos sugeridos a concurso. A Lisboa das sete colinas, a mesma que tem 4 ascensores nas ruas mais íngremes, começou recentemente a explorar a mobilidade em 2 rodas. Se em 1892 tivesse sido pedido ao Raoul Mesnier du Ponsard, engenheiro que criou o ascensor da Bica, para incluir no seu projecto um sistema para transportar bicicletas Bica acima, talvez achasse um pedido de loucos! Mas o certo é que os hábitos Lisboetas estão a mudar, e a inclusão da bicicleta como transporte diário é uma realidade cada vez mais presente, inclusive aqui, um dos bairros mais íngremes.

"A BICA É LINDA"

“A BICA É LINDA”

Do Largo de Santo Antoninho abre para a esquerda a Rua dos Cordeeiros, artéria que une a Bica a Santa Catarina. Até 2013, encontrava-se aqui um polo da Junta de Santa Catarina, mesmo sendo a Bica da Junta de São Paulo, um facto que os locais me contam ar jocoso, como se houvesse uma amigável cobiça entre Juntas. É também nesta rua que está o Grupo Desportivo Zip-Zip, considerado pelos Bicaenses como a “sede” da auto-denominada “Bica do Lado de Lá do Elevador”. Apesar de estar quase sempre encerrado, faz um arraial por altura das Marchas ou ocasionalmente abre para uma noite de fados.

Grupo Excursionista "Vai-Tu"

Grupo Excursionista “Vai-Tu”

Rival à “Bica do Lado de Lá do Elevador” é a “Bica de Baixo”. Representada pelo Marítimo Lisboa Clube, conhecido apenas como Marítimo. Como a Bica “é Grande”, a sede do Marítimo é a escassos metros da sede do seu rival, nas Escadinhas da Bica Grande. O território é delineado pelos carris do ascensor. Já a “Bica de Cima” é representada pelo Grupo Excursionista Vai-Tu, que apesar de estar hoje em “terreno neutro”, estrategicamente posicionado no nº6 da Rua da Bica de Duarte Belo (conhecida apenas como “a rua do elevador”), teve as suas origens também na Rua dos Cordeeiros, a portas meias com o Zip-Zip. O Vai-Tu é hoje o colectivo mais prolifero, famoso pelas suas noites de fado, mas onde também é possível ver jogos de futebol e comer umas boas bifanas. É aqui que se respira o mais genuíno ar Bicaense, com habitantes cujos pais já tinham nascido na Bica, cujas avós lavaram as suas roupas no tanque da Bica Grande e cujos tetravós sonharam com o dia que lhes fosse facilitada a íngreme subida da Rua da Bica de Duarte Belo, sem ter que ser a pé nem de bicicleta às costas.

Florestas Urbanas da Bica

Florestas Urbanas da Bica

Vista ao pormenor, há recantos que nos fazem viajar pela história, alimentando a nossa imaginação sobre como terá sido outrora. Algumas representações em azulejo de Santo António, São Marçal, Nossa Senhora do Carmo, ou até o brasão dos Távoras, contrastam com novas intervenções artísticas, que vão desde azulejos com corações aos inúmeros panfletos colados pelas diversas superfícies, promovendo artes e cultura. Os varandins estão apinhados de florestas urbanas, que contrastam com as cordas de roupa que se sacodem livremente ao vento, revelando toda a intimidade das gentes que ali habitam.

Coração da bica

A Bica é como um copo de vinho. Há quem veja um copo de vinho meio cheio, outros vêem meio vazio. Misteriosa, como a neblina matinal à beira-rio; iluminada, como as solarengas tardes nos alto dos miradouros. A Bica tem tudo. Se a Bica fosse um vinho seria um Cabernet Franc, dada a sua extraordinária capacidade de adaptação e maturação precoce; irmã rústica do Cabernet Sauvignon (Bairro Alto), que não chega a ser aveludada como um Merlot (Santa Catarina) nem precisa da “grã classe” dum Pinot Noir (Chiado).  Mas não nos confundamos! Independentemente da uva que usamos, a Bica quer-se cheia, com os seus aromas ricos e envolventes. Da herança lusitana, que chora o fado, a Bica celebra a vida. E eu sugiro um brinde à Bica!

tanianeves.com

Que rica que vai a Bica,
Vai com tal graça e tem um certo não sei quê
Que linda que ela é ainda,
Por onde passa até alegra quem a vê.
– Frederico de Brito, “A Marcha da Bica

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