Dia 17, km9732
Irkutsk – Rússia

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Chegar a Irkutsk

Desta vez viajei na platskartny, a 3ª classe do combóio. O Lucasz, o rapaz Polaco que conheci na viagem para Novosibirsk, tinha viajado na platskartny, e descreveu a experiência como “intensa”. Como eu tinha trocado os bilhetes à ultima da hora, viajava novamente numa cama de baixo. O espaço é muito pequeno, não dá sequer para sentar. Para subir, tive que pedir ajuda a outro passageiro, um russo muito simpático que mais tarde vim a saber que se chamava Vasili. Mais tarde viria a descobri também que ele ia ser a minha salvação.
Tive que colocar os pés na mesa de baixo para conseguir subir, e as pessoas de baixo não ficaram nada contentes. Fiquei tão envergonhada! Percebi que descer ia ser igualmente difícil, então decidi que me ia aguentar ali o máximo que conseguisse. Dormi dez horas.
Quando acordei, voltei a descer pela mesa, e recebi mais caras feias. Pedi desculpa o melhor que pude, e saí – estavamos numa paragem. Logo pensava como iria fazer com a segunda noite, mas certamente não ia dormir ali.
Passei quase o dia todo na carruagem-restaurante. Esta carruagem não era tão boa quanto o combóio anterior. Mais fria, e o staff também era menos simpático. Com a chegada da noite chegava também a hora de começar a orquestrar um plano de onde iria afinal passar a noite. Reparei que a cama lateral de baixo junto à providnitsa estava ocupada apenas com os sacos de muda da roupa das camas. Perguntei se me podia sentar ali para trabalhar, já que na cama era impossível estar sentada. Depois reparei que o Vasili estava na cama em frente. Passado um pouco, ele convidou-me a partilhar a mesa dele, já que a cama onde eu estava sentada não tinha mesa.
Apresentou-me o rapaz da cama de cima, um Chinês que falava Russo e Inglês. Foi a ponte de ligação entre os três, e ali ficámos a falar até às tantas. O Vasili lembrou-se então que na noite anterior eu tinha tido imensas dificuldades em subir para a minha cama. Fez-me sinal para esperar enquanto se retirava, e sem que eu lhe pedisse nada, foi falar com a providnitsa. Conseguiu-me mudar para a cama onde eu tinha estado sentada a trabalhar, sem me cobrarem nada – estas camas são normalmente um pouco mais caras. Vasili, estou-te eternamente agradecida!

Rolling Stones

Pouco depois das oito, chegávamos finalmente a Irkutsk. Imediatamente, senti tudo certo. Era suposto eu estar aqui! Segui as instruções que me tinham sido deixadas pelo hostel: bus ou marshrutka (minibus) à saída da estação, sete paragens, virar à esquerda, número seis. Do lado de fora, numa placa em madeira queimada, lia-se: HOSTEL. Cheguei! Toco à campainha, e quando oiço uma voz do outro lado, respondo: “Hi, it’s Tânia!“. Do outro lado oiço um sorriso: “Come in!“.
Subo as escadas e abro a porta. Está quentinho ali dentro! O rapaz espreita, cumprimenta, e convida a tirar os sapatos. Sabe mesmo bem chegar a casa. Vou percorrendo todos os pormenores com o olhar, e vejo tudo certo: o espaço é limpo, a música é certa, a atitude perfeita. Sei que não vou querer ir embora, e ainda agora tinha chegado.
Tomei um longo, merecido duche, para esfregar a 3ª classe. Vesti a roupa mais confortável que tinha, e instalei-me no sofá. Há muito tempo que não via um sofá! Aproveitei a net rápida, o sofá confortável e o café que não balançava nos carris, para actualizar o blog e a cabeça.

Já não me lembro como começou a conversa, mas começo a falar com o casal que está sentado ao meu lado no sofá. Chamam-se Verónika e Peter, e são Eslovacos. Estes vão ser os meus companheiros das próximas viagens, mas aqui eu ainda não o sabia. Têm estado a viajar mais ou menos o mesmo percurso que eu, viajamos com um dia de diferença apenas.
Aproveitei a companhia e no dia seguinte acompanhei-os ao museu da Sibéria, em Irkustk. Combinamos encontrarmo-nos também em Khuzhir, na ilha Olkhon, a maior ilha do lago Baikal, que por sua vez é o maior lago do mundo. Ponto de visita obrigatório a quem vem a estes lados da Sibéria!

Cheguei à ilha um dia depois deles. Eles tinham alugado um carro, pois queriam viajar com a maior independência. Eu, fui de marshrutka. No hostel é possivel fazer directamente a reserva para a viagem. Por 900₽ apenas, vem uma carrinha buscar-nos directamente ao hostel, que nos leva então à marshrutka, que por sua vez nos deixa na nossa morada de destino na ilha (ou no caminho!). A viagem são sete dolorosas horas, já que grande parte do caminho não tem asfalto, e parte da viagem ainda é feita no ferry (durante o Inverno, quando o lago está congelado, os carros conduzem directamente no gelo!).
No dia da minha viagem para Olkhon nevava imenso. Eu tinha optado pela marshrutka da tarde para ainda poder fazer algumas filmagens durante a manhã, mas acabei por ficar presa no hostel o dia inteiro. A viagem, que por si só já é atribulada, com esta primeira neve do ano foi um bocado ainda mais aventureira. Tivemos inclusivé que parar algumas vezes pelo caminho por a estrada estar coberta de gelo. Pena foi não dar para ver nada pela janela!
Na marshrutka não seguia mais ninguém estrangeiro. Ao meu lado, um avôzinho siberiano, que queria imenso conversar comigo, mas seguíamos separados pela barreira linguística. Eu estava um pouco envergonhada porque me estava a desenrascar muito menos que ele. Com a sua persistência e paciência, lá fomos ultrapassando os obstáculos da língua, optando em vez de palavras por expressões e gestos. Contou-me sobre a sua linda esposa e os dois filhos, da sua quinta com cinco cavalos e cinco vacas, a inda me falou do pequeno oratório que tem estado a construir, aproveitando a dica para me mostrar mais sobre o xamanismo, a religião local, da qual ele era praticante. Sete horas de viagem dão para tanta coisa!

Khuzhir / Ilha Olkhon

Cheguei a Khuzhir já era noite cerrada. Não dava sequer para decifrar as pequenas casinhas de madeira corrida, porque não há iluminação na rua, é tudo escuro como breu. A marshrutka deixou-me à porta do número onze, o meu destino, e partiu. Olhei à minha volta, e não via nada. Olhei para a porta, e também não vi nada: nem campaínha, nem luz, nem instruções. Enviei mensagem no Facebook ao Pete e à Verónika, mas também eles não viram nada. Ao meu lado, está um cão lindíssimo, arraçado de Husky, que me observa perdida e abana a cauda como quem diz para não me preocupar, que vai ficar tudo bem. Ao menos eles não está preocupado, e parece feliz de me ver.
Decidi abrir a porta para ver se encontrava alguém. O portão não estava trancado. No pátio, não havia, também, sinais de vida. Uma luz acesa, numa sala onde não estava ninguém, e uma outra luz na marquise do edifício. Gritei algumas vezes um “priviet” bem alto, na esperança de ser ouvida, mas nada! Decidi então aventurar-me pela casa adentro, à procura da recepção. É então que aparece uma senhora, já com a sua idade, que parece estar muito, muito chateada comigo. Não fala uma palavra de inglês, mas sabe que tenho uma reserva pois pede-me logo para a seguir, mesmo sem saber o meu nome nem confirmar a minha identidade. Tento segui-la, carregada das minhas tralhas, pela escuridão da imensa propriedade, tão extensa quando estreita. O meu maior receio é sempre tropeçar nos meus pés tortos e esbardalhar-me no chão. Ela não fala, não abranda, não vacila, não dá hipótese.

Finalmente, parou frente a uma porta de uma das muitas casinhas de madeira. Ao lado da porta, ao ar livre, tem um sofá e uma televisão. Ela abre a porta do nº12. Lá dentro, duas pequenas camas, do que os meus pais (que têm um pequeno negócio de móveis) catalogariam como “cama de criança” estão cobertas de edredons e cobertores. Dois pequenos aquecedores batalham na potência máxima uma luta inglória contra as temperaturas gélidas, uma luta tão inglória como a da colagem de “arte” na parede, onde várias folhas de impressão A4 ilustram um cenário florestal com um grande urso ao lado de um rio. Um papel de parede estilo anos 70 a roçar no foleiro finalizam o toque decorativo, e um espaço pontuado apenas pelo vapor da minha respiração.
A mulher já ia virar costas quando lhe perguntei pelas casas-de-banho. Manda-me sair para fechar a porta, e para a seguir – lá vamos nós para outro sprint. Com uma agilidade de fazer corar até a Rosa Mota, e com expressões tão compreensíveis como as de uma marmota, passa por duas casas-de-banho e diz que não funcionam. Umas quantas vacas e casas depois, chegamos finalmente a um descampado. Ela aponta para a esquerda: aqui ficava um barracão, ou melhor, a sauna e o duche conta-gotas de àgua fria. E à direita, dois buracos no chão, que não eram fundos o suficiente para disfarçar os dejectos dos hóspedes. Pela primeira vez agradeci a ausência de luz. E arrependi-me de não ter ido acampar.

Pela noite lá encontrei finalmente a Verónika e o Peter, que também ali estavam hospedados, e de manhã fomos à procura de tours pela ilha. Tinhamos intenções de ir até ao norte, mas todos nos diziam que um carro normal não conseguiria andar naquelas estradas, por isso teríamos que fazer um tour “normal”. O preço é fixo: 900₽ pelo tour própriamente dito, mais 90₽ para a entrada na reserva.
As carrinhas são as famosas minivans russas, com tracção às 4 rodas e com uma suspensão que quase nos atira à Lua. Mas são propriamente “badasssssss”! Têm bancos corridos em pele e felizmente não atingem grandes velocidades. São completamente mecânicas, sem nenhum instrumento digital. Estão na minha lista de desejos! Levaram-nos aos locais mais incríveis: vimos floresta, deserto, ravinas, praias, monumentos xamãs, cruzamo-nos com vacas, cavalos, esquilos e até bisontes (que eu nunca tinha visto ao vivo!).
Pela hora de almoço o nosso condutor mandou-nos dar uma volta, porque nos ia preparar o almoço. É normal fazerem-nos a sopa de peixe local, o peixe fresco do lago Baikal. A Rússia tem sopas espectaculares, super ricas em sabores e texturas, mas esta acho que foi a melhor sopa que comi na Rússia. Foi sem dúvida a que melhor me soube! Com meio peixe inteiro lá dentro, batatas, arroz, cenouras e outros vegetais, com um caldo muito, muito saboroso! Tivemos também direito a chá, pão e chocolates. Adorei, e espero mesmo voltar para explorar melhor a ilha, no Verão e até mesmo no Inverno, quando o lado fica todo congelado.

Irmandade Vagabunda

No dia seguinte chegou a hora de voltar a Irkutsk, desta vez eu ia com eles no carro que eles tinham alugado. Voltar ao Rolling Stones Hostel foi tão bom como voltar a casa!
A Verónika e o Peter partiram bem cedo na manhã seguinte para UlaanBaatar no combóio da manhã. E eu, exausta, queria ter ficado na ronha na cama até tarde, mas infelizmente no hostel estavam hospedados onze miúdos, que acordaram a horas indecentes, a serem miúdos. 7h45 e já eu estava fora da cama a suplicar por um balde de café.

Tinha o Sábado e o Domingo livres, e pensava que ia dar perfeitamente para actualizar o blogue, filmar coisas, relaxar… Não podia estar mais enganada! Durante o Sábado fui passear com a Johanna, da Finlândia, e com o Yoel, de Israel. Estava um dia espectacular, super solarengo, lindo! Caminhamos junto ao rio, fomos beber uma cerveja, e ainda ganhei uns desenhos lindos no meu caderno de viagens, já que ambos desenham muito bem. Ao fim do dia ainda conheci o Lucaz, da Alemanha, o verdadeiro aventureiro! Anda a viajar desde Junho, com uma tenda, e tem ficado nos sítios mais incríveis de imaginar. O bom de viajar sozinha é isto, é conhecer outros como nós, e tratamo-nos como se nos conhecêssemos há tantos anos. Sinto neles os meus amigos de sempre, uma confiança que não se tem com qualquer um. Irmandade vagabunda.

Domingo foi dia de fechar o circulo. Ia finalmente deixar a Rússia para trás e partir na viagem mais entusiasmante de todas, a Mongólia!

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