Dia 8, km 7287
Novosibirsk – Russia

A minha primeira aventura no transiberiano foram 3344kms, feitos em 56h. Sim, uma viagem com a supersónica média de 60kms/h. Tinha reservado uma cama numa kupe, um compartimento de 4 camas, só para mulheres. A minha ansiedade maior era em saber com quem iria eu partilhar as próximas 56 horas. Ainda para mais, eu tinha reservado a cama de cima, que me deixou nervosa, porque se há coisa que não tenho boa, são os meus pés (tenho ferros no pé direito e fiz uma dupla ruptura de ligamentos no pé esquerdo apenas três semanas antes do inicio da viagem).
Para minha surpresa – e alívio! – não tinha ninguém na minha kupe. Durante quase dois dias seguidos, estive sozinha, sem saber se isso seria bom ou mau. E subir para a cama de cima não foi assim tão difícil: tem uma barra superior para nos agarrarmos, e uma mini (sim, mini!) escada que se puxa do lado da porta que corre, com dois degrauzinhos para subirmos. Depois, já em cima, tem uma pequena prateleira e uma barra, onde podemos guardar aquelas coisas de primeira instância, como toalha, items de higiene, e talvez uma muda de roupa leve. Tem ainda dois ganchos para pendurarmos casacos. A mala ou mochila deve ser guardada num nicho que existe por cima da parte do corredor, mesmo ao fundo da cama. Não é fácil subir as coisas, tive que pedir ajuda a um rapaz do compartimento ao lado.
São-nos dados lençóis, uma capa de edredon, uma fronha e toalha lavados. Além disso, também nos dão um kit com: toalhetes refrescantes, um palito tipo fio dentário, escova e pasta de dentes, uns chinelos, e para minha surpresa, graxa para os sapatos e uma calçadeira!
A cama não é desconfortável, e com o embalo do combóio a mim só me deu para dormir. Não me lembro de dormir tanto na vida, sem ser quando estive doente!

Transiberian kupe #theta360 – Spherical Image – RICOH THETA

O meu bilhete incluía uma refeição, que foi o pequeno-almoço. As meninas do restaurante vêm aos nossos compartimentos perguntar o que queremos. Falha de comunicação monstruosa, eu pedi arroz cozido com leite (que é típico, e muita bom!), e ela trouxe-me crepes, e uma espécie de cubos coloridos com açúcar, do que acho que teria sido originalmente fruta desidratada. Finda esta experiência era agora altura de ir conhecer o restaurante, que – sorte a minha – ficava logo na carruagem a seguir. O menu parecia saído directamente de um boteco qualquer que tinha ficado perdido algures nos anos 80, com fotografias suspeitas e nomes sugestivos como “Massa com Produtos Fumados“. Comi uma sopa tipo canja e aquilo que eu pensava que era afinal uma fatia de pão torrado de compra barrado com manteiga de alho quente. Não sei onde ficou o queijo! Terminada a degustação fui fazer o que melhor se faz no transiberiano – fui dormir.

No final da segunda noite recebi finalmente companhia no meu compartimento: mãe e filha. A filha devia ter os seus 16 / 17 anos, alta falava inglês. Acho que ela deve querer ser modelo, pela sua postura e pela enriquecedora literatura de cinco ou seis revistas de moda que trouxe para as poucas horas passou no combóio. Já a mãe, tinha o ar de sua graça, como que se um camionista se tivesse apoderado do corpo de uma matrafona, completa com mise e lábios carregados. Apesar de eu não compreender bem a lingua, deu para perceber pela sua postura que estava incomodada com a minha presença. Acho que ela esperava ter o compartimento todo só para elas. Mas para isso, existe a primeira classe!
Fui para o restaurante, porque afinal a companhia não era assim tão boa. Lá estava um casal, já na casa dos 60, Holandeses. À conversa com eles estava um rapaz Polaco, o Lucasz. Na mesa do lado, a jantar, estava um Russo, o Aleksey. Passado um tempo o casal Holandês acabou por se retirar, e fiquei só eu, o Lucasz e o Aleksey. O Aleksey falava pouquíssimo inglês, mas esforçava-se imenso para se fazer entender, e era uma delicia falar com ele. Bem apresentado, alto e louro, enquadrava-se bem no estereotipo Russo. Muito divertido! Já fechado o restaurante, demos por nós já na cozinha da carruagem a fumar cigarros com o staff a rirmos perdidamente. Acabamos a noite a ser forçados a abandonar a carruagem restaurante e ter que regressar aos nossos lugares – afinal, o staff precisava descansar. Como eu seguia na carruagem 6 (kupe), mas o Aleksey na 9 (primeira) e o Lucasz na 13 (platskartny), estavamos separados (a carruagem 7 era a do restaurante, e fechada, não permite passagem). Então, sempre que o combóio fazia paragens longas, lá saíamos nós e davamos uma corridinha para nos reencontrarmos. Prova que podemos fazer amigos em qualquer carruagem, classe, ou até hora do dia!

Cheguei finalmente ao meu destino, Novosibirsk, pela hora de almoço de dia 29. À saída do combóio, reencontrei o Aleksey. Simpático e prestável, como sempre, o Aleksey ofereceu-se para me chamar um uber, levou-me ao carro, e indicou o caminho ao motorista. Antes de eu entrar pegou no meu telefone, digitou o seu número e passou-mo de volta.
– “Se tiveres algum problema, ou precisares de alguma coisa coisa, ligas para mim, ok?
OK! Os russos têm-se revelado de uma prestabilidade e amabilidade ilimitada. Agradeci-lhe e despedimo-nos.

O motorista do uber estava um pouco irritado. Não gostou da ideia de eu ficar num hostel, e insistia levar-me a um hotel, mas eu tentava – na nossa zona linguística cinzenta – apaziguá-lo dizendo que estava tudo ok e que estou acostumada. Para piorar, ele não encontrava a morada exacta do hostel. Depois de duas ou três voltas em torno do mesmo bloco de prédios, para o carro, e faz-me sinal para sair. Ele sai também. Pego na minha mochila, ele pega na minha bolsa e saco de comida, e faz-me sinal para o seguir. Leva na mão o tablet com o GPS ainda a ditar instruções. Mal posso crer no que vejo!

Encontrada finalmente a morada, eu não estava muito mais apaziguada. O motorista abanava a cabeça, interrogando-se como era possivel que eu, turista, fosse ficar ali hospedada. Não era bem um hostel – era mais um pequeno apartamento onde habitavam várias pessoas, em beliches. A maioria devia ser dos subúrbios, e para não terem as despesas de alugar um apartamento na cidade, ficam em hosteis. Pelos inúmeros reviews que li no Hostelworld e na Booking percebi que era prática comum. Cheirava mal e tinha péssimo aspecto. Mas eu pensei que não poderia ser picuínhas e decidi dar uma chance.

Não valeu a pena. Na manhã seguinte todo o meu instinto me dizia para sair dali para fora. Mal acordei, vesti-me e saí porta fora. Fui directa à estação de combóios decidia a trocar o meu bilhete para o próprio dia.
A barreira linguística em momentos destes é frustrante. À terceira tentativa, já no terceiro guichet, meti na cabeça que não sairia dali sem um bilhete. Mesmo! Entre Google Translates, gestos, beicinhos e alguma compaixão, lá consegui: trocaram-me o bilhete!!!

Todo o meu instinto aposta em Irkutsk. Irkutsk vai ser mesmo o ponto alto da viagem! Volto ao quarto, arrumo as coisas e digo à dona do sitio que me enganei nas horas, dei a desculpa da questão dos fusos horários (em toda a Rússia, os combóios são sempre apresentados no fuso horário de Moscovo). Não lhe consegui dizer a verdade, mas creio que ela percebeu. Devolveu-me o dinheiro da estadia que não usufrui, sem que lho pedisse. E sentou-se um pouco comigo a falar e a sorrir, mas lia-lhe sempre por trás do olhar a desilusão de saber do que eu fugia. Eu não podia vacilar. Não olhes para trás porque tens o Mundo inteiro pela frente. Sorri, agradeci-lhe, e fui.

Irkutsk, estou a caminho!

Novosibirsk train station! –

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