Dia 113, km 27039
NEPAL

Kathmandu

Chegar a Kathmandu não foi fácil. Como tínhamos decidido viajar por terra, apanhamos o night bus de Varanasi para Kathmandu, que nos foi dito poderia durar qualquer coisa entre 15 e 24 horas.

A viagem até à fronteira foi normal, com os típicos ritmos de viagem lentos que são praticados na Índia. À chegada à fronteira, carimbamos o nosso passaporte para a saída, e passamos para o lado Nepalês onde após pagarmos os 40USD, recebemos o visto e o respectivo carimbo de entrada no país. Regressamos ao autocarro e foi aqui que começaram todos os problemas, que até à data desconhecíamos. Ao que parece tem havido umas discordâncias políticas entre o Nepal e a Índia, e nesta região do sul do Nepal querem mais poder politico ou independência, então são apoiados pelo governo Indiano. Nos últimos meses, quando chegam autocarros turistas, há manifestações que podem ser violentas, e envolvem cocktails molotov, arremesso de pedras e outros distúrbios. Assim sendo, o nosso motorista recusava avançar, por motivos de segurança, e ficamos ali parados à espera quase 6h, ao sol. Passada a espera fizemo-nos finalmente à estrada, e chegamos a Kathmandu 26 longas horas depois da nossa partida de Varanasi.

Kathmandu é uma cidade interessante, ainda visivelmente abalada pelo terramoto de Abril 2015. Ainda se vêem bastantes destroços, mas a vida já voltou ao normal para grande parte da população aqui. Apenas quando chegamos à praça Durbar, património UNESCO e bastante afectada pelo terramoto, podemos sentir realmente o pânico que por aqui se sentiu. Os abalos sísmicos ainda são recorrentes, que nos relembram da impotência humana face à força da Natureza.

Do cimo do templo Swayambhun, popularmente apelidado de “Templo dos Macacos” (Monkey Temple), temos uma vista sobre toda a cidade, e grande parte do vale também. Paragem obrigatória a todos os que visitam Kathmandu! Quem vem a pé do centro passa também pelo Bijeshwori Temple, onde várias pessoas vêm fazer as suas oferendas. Por trás do Bijeshwori Temple estão umas mulheres a fazer os coloridos mantos de lã de iaque, que também é bastante interessante de se ver.

A melhor zona para se ficar hospedado em Kathmandu nos dias de hoje, é na zona do Thamel, ou na zona circundante, junto à rua Paknajol (onde ficamos hospedados, os preços aqui são mais baixos que no Thamel). O Thamel é o bairro mais central e turístico de Kathmandu: é aqui que se encontram todas as lojas de souvenirs, de trekking, restaurantes, bares, guest-houses e hotéis.

Os autocarros para sair de Kathmandu, por norma, saem todos do mesmo sítio, à mesma hora: Kanti Path, 7h da manhã. Próxima paragem: Pokhara, capital da aventura no Nepal.

Pokhara

De Kathmandu a Pokhara são cerca de 200kms, mas devido a má qualidade das estradas as viagens alongam-se no tempo, e podem durar até 6 ou 7 horas. Mas Pokhara é maravilhosa, e a diferença de preço entre a viagem de autocarro e dos bilhete de avião, valem a pena a viagem mais morosa, até porque é uma oportunidade única de conhecer e se inteirar melhor com a cultura local, observando-se a paisagem mudar entre curvas e rios.

A paisagem predominante de Pokhara é o lago Fewa e o pico Machapuchare, mais conhecido por “Fish Tail“. Machapuchare tem “apenas” 6993m de altitude, um “menino” entre os picos da cordilheira de Annapurna que ascendem acima dos 8000m, mas nunca ninguém conseguiu chegar ao cume, e há mais de 60 anos que a montanha é considerada interdita. É considerada uma montanha sagrada.

Pokhara em si, é uma cidade relaxada, principalmente na zona junto ao lado. Há inúmeros alojamentos par todas as carteiras, com todas as vistas, para todo o tipo de viajante, sendo que os que mais abundam por aqui são os trekkers e aventureiros. De manhã os céus enchem-se de parapentes, que pintam os céus desde o pico de Sarangkot descendendo até ao lago. Para quem nunca experimentou parapente, Pokhara oferece as condições perfeitas para o fazerem, com condições e termais estáveis o ano inteiro. Os mais receosos podem experimentar fazer o primeiro voo da manhã, um voo mais tanquilo, mas também mais curto. Já os mais aventureiros podem fazer o voo por volta do meio-dia, onde os termais estão mais desenvolvidos e se consegue uma ascensão maior, mais rápida, e mais excitante. Eu voei com a Everest Paragliding, mas há mais 21 companhias certificadas em toda Pokhara, e todos praticam os mesmos preços (por lei). Em época baixa é normal conseguirem um preço mais baixo do que aquele tabulado.

Também em Pokhara há um pequeno cinema ao ar livre, o Movie Garden, que exibe um ou dois filmes todas as noites: o primeiro ao por-do-sol, e se houver uma segunda sessão, mais à frente. Por norma exibem filmes clássicos ou adequados. Eu assisti a filmes que na minha opinião foram bem relevantes ao cenário e / ou história locais: Samsara, de Ron Fricke; Kundun, de Martin Scorcese; Sete Anos no Tibete, com Brad Pitt; e o Rei Leão, da Disney.

Mustang / Annapurna

Há inúmeras opções de trekking / montanhismo no Nepal, mas a região que eu estava mais curiosa em conhecer era a de Annapurna. Os treks mais famosos aqui são o do Circuito de Annapurna (14 dias – não teríamos tempo), e do Santuário Annapurna ou ABC (Annapurna Base Camp), que é também um dos mais difíceis ou perigosos nesta altura do ano. O nosso maior interesse era, no entanto, embrenharmo-nos na cultura local mais remota, então decidimos ir para a região mais distante em Annapurna, Lower Mustang, parte do antigo reino de Lo (Mustang), e a sua comunidade tibetana. Não poderíamos ter decidido melhor!

Hoje em dia é mais fácil chegar a esta zona, pois desde há uns anos para cá existe uma estrada que liga Beni a Jomsom, e posteriormente até Muktinath também. Mal sabíamos nós o tipo de estrada em que nos estavamos a meter, num penhasco com uns 1400m de altura até ao rio… a subida no autocarro foi tenebrosa, por isso a descida fizemos de jeep, pois é mais pequeno e mais ágil, e claramente menos assustador também!

Começámos o nosso trek em Jomsom, daí para Lupra, e depois a passagem até Muktinath – que eu não fiz, pois fui atingida pelo Mal das Montanhas (AMS – Altitude Mountain Sickness). Tive que descer de novo até Jomsom, e daí apanhar um jeep para Muktinath para me encontrar com os meus companheiros de novo no dia seguinte. Em Muktinath passamos 4 noites, uma das quais a noite de ano novo. Ficamos hospedados num sitio espectacular, o Deam Home, logo à entrada de Ranipauwa, onde existe também a sauna mais alta do mundo, de acordo com o livro de records do Guinness. O dono, Ucraniano, cozinhou-nos sempre as refeições mais deliciosas, incluíndo pratos de peixe, e uma refeição completa tradicional russa na noite de ano novo, que passamos junto com outro hóspede – amigo dele – meio Russo, meio Israelita.

De Muktinath fizemos vários treks curtos para as aldeias circundantes, até há bem pouco tempo restritas a turistas: Phurang, Jharkot, Chongur e Jhong. Mustang era um reino independente, e estas são pequenas aldeias tibetanas com tradições e dialectos próprios, e é incrível de se ver. Por isso é que este tipo de trekking é tão incrível, mais do que a aventura de explorar a paisagem, é uma viagem cultural imensa.

Depois de Muktinath começamos a nossa descida, fomos até Kagbeni, e pelo caminho assolados por um nevão: o primeiro deste Inverno, nesta zona. Mas isso não tirou a magia a Kagbeni: uma vila maior, de influência Bon e Gurung, com dois grandes templos e um rio. Aqui conhecemos o dono do hotel mais antigo de Kagbeni, que nos recebeu humildemente no seu alojamento e nos deu a provar o melhor pão da região, feito pelo próprio.

No dia seguinte, fizemo-nos à estrada para a ultima etapa do trek, até Marpha. Marpha é conhecido acima de tudo pelas maçãs, com campos que se estendem até para lá do horizonte. Para além do típico licor de maçã ou alperce, é também muito comum a maçã ou alperce desidratados, um snack delicioso e saudável, e ótimo para trekkers!

Mar

onde apanhamos o jeep de volta para Pokhara. Mas Annapurna ficou-me no coração, e vou voltar algumas vezes mais para explorar melhor não só a incrivel cordilheira, mas também a sua gente e cultura.

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