Dia 43, km 14345
MONGÓLIA

Chegar a UlaanBaatar

Feliz ou infelizmente, durante a viagem à Mongólia, deixei de escrever o meu diário. Precisamente quando cheguei ao deserto. Mas já lá vamos.

Deixei Irkutsk de manhã cedo, pois o combóio da manhã é o melhor para se apreciarem as vistas na famosa curva do Lago Baikal. Quase perdia o combóio, pois na noite anterior houvera festa no hostel, e eu tinha ficado agarrada ao computador a acabar de editar o video de Irkutsk. A viagem sem dúvida que compensa, e é das paisagens mais maravilhosas que podemos observar!

A passagem da fronteira é feita com as burocracias do costume, mas sem qualquer problema. De relembrar que tratei do meu visto da Mongólia em Irkutsk, e foi mais barato e rápido que em qualquer outro lugar (cerca de 60€, demorou apenas 30 minutos).

UlaanBaatar não é nada como eu imaginava. É uma cidade que está em rápido crescimento, e os aranha-céus surgem no horizonte para qualquer lado que olhemos. O trânsito é caótico e a vida, no geral, não é tão barata quanto estamos habituados, vindos da Rússia.

Aqui encontrei-me com a Verónika e o Peter, que tinha conhecido em Irkutsk, pois decidimos fazer uma viagem pela Mongólia juntos. Os próximos 14 dias seriam passados numa aventura pela vida nómada mongol, com condições básicas e uma flutuação de temperaturas indescritivel: dos 16º aos -27º. Ora bora lá!

Erdiin Khambiin Khiid e Kharkhorin

Os primeiros dois dias seriam passados por aqui. Poucos kms depois de arrancarmos, a nossa carrinha avariou logo, e tivemos que fazer uma paragem para arranjar o motor. Depois seguimos rumo a um dos muitos mosteiros que a Mongólia tem para nos oferecer, e passamos a primeira noite com uma familia nómada ali perto. Foi a primeira vez que vi camelos! A lua estava cheia, por isso mesmo durante a noite conseguiamos ver tudo. A Mongólia tem o céu mais incrivel que vi na minha vida, e isso só se iria acentuar mais adiante, com a lua nova.

No segundo dia chegamos a Kharkhorin, a antiga capital da Mongólia. Uma cidade muito populada, mas completamente diferente de UlaanBaatar. Na verdade, era assim que eu imaginava as cidades aqui: com gers em vez de edificios, espalhada pelos campos, sem estradas de alcatrão nem nada das comodidades ocidentais. Visitamos o mosteiro e outros pontos de interesse, e passamos a noite num ger camp. Para minha surpresa aqui tinhamos wifi e casas-de-banho estilo ocidental, com direito a sanita, chuveiro de água quente e tudo! Aproveitei e tomei aqui o meu primeiro banho, pois sei que isso era coisa que ia escaçar nos próximos dias.

Terkhiin Tsagaan e os vulcões

No terceiro dia acordámos para um pequeno problema: o nosso motorista tinha um problema num olho, e não conseguia ver bem, precisava de ir para um hospital. Como tenho experiência a conduzir carripanas velhas, ofereci-me para conduzir. Conduzi a carrinha algumas 3 horas, e tivemos que ir a outras duas cidades à procura de hospitais, porque Kharkhorin não tinha, e Tsetserleg, na segunda cidade, não tinha o medicamento que ele precisava. Só na terceira cidade, Tariat, encontramos um hospital e uma farmácia com o medicamento necessário.

Passámos o dia inteiro nisto, mas ainda deu tempo de fazermos um trek ao cimo do vulcão, e chegarmos ao lago Terkhiin Tsagaan, onde iriamos passar as próximas duas noites, mesmo a tempo de ver o por-do-sol. Teríamos aqui o merecido descanso, principalemente o nosso motorista!

Apesar de termos chegado com bom tempo, acordamos com um manto branco de neve. Parte do lago congelara durante a noite. Nunca tinha visto nada assim! Estavamos completamente gelados, e o chefe da familia foi simpático o suficiente para nos emprestar umas roupas tradicionais mongóis, que nos deliciou!!! E que quentinhas que são!

Passamos os dias junto ao lago, a fazer caminhadas com o cão da familia e a ver os iaques. Também foi a primeira vez que vi iáques! O descanso era merecido, pois ao quinto dia, teríamos uma das etapas mais longas pela frente.

Ulaan Tsutgalaan e os cavalos mongóis

Foi o dia que mais kms fizemos, e foram bem dificeis. Devido à primeira neve, e ao facto de não haverem estradas, todo o caminho foi feito em modo 4×4, a derrapar, subir colinas entre àrvores, atravessar rios, pedras, montanhas e colinas. Enfim, uma canseira!

A caminho parámos nas termas sulfúricas. Apesar de a estância estar fechada (fora de época), conseguimos passar pelo portão e passearmo-nos por lá. Deve ser incrivel no Verão!

Seguindo caminho, chegamos finalmente às gers da familia com quem iriamos passar as próximas duas noites, junto às cascatas de Ulaan Tsutgalaan. Aqui iríamos finalmente montar os cavalos mongóis!

Os cavalos mongóis são mais baixos e “gordos” que os cavalos a que estamos acostumados na Europa. E muito mais calões também! O comando para arrancarem é “chu”, mas por muitos “chus” que dessemos eles não andavam… Finalmente o nosso chefe da familia lá os puxou e eles começaram a andar. Devagarinho, fomos até à cascata, e na volta já viemos a trote (e por umas falésias que eu ia morrendo só de olhar!).

Aqui, no meio do nada, completamente isolados do mundo, vi o maior céu da minha vida! Todas as noites saía para o frio, montava o tripé, e tirava inúmeras fotos: light painting, star trails… Uma das minhas fotos tem o nascer da lua, tão brilhante que parece um sol! Era noite de super-lua, e nenhum sitio do mundo é tão bom para se ver, como no céu da Mongólia. Fiquei apaixonada…

Ongiin Khiid, Flaming Cliffs e os dinossauros

Passamos a sétima noite num ger camp não tão bom: não tinham lenha, carvão nem estrume para queimar, pelo que pela primeira vez, “rapámos” um frio DAQUELES. Safou-nos uma garrafa de vodka que o outro grupo que lá estava tinha, mas apenas deu para adormecer. A meio da noite lá acordámos, gélidos.

De manhã cedo acordámos e fomos visitar o mosteiro ali perto, o Ongiin Khiid, completamente em ruínas. Mais uma vez, este é um sitio que parece ser bastante interessante no Verão, mas nesta altura estava tudo fechado. Os ger camps à volta anúnciavam montes de actividades. Parece um sitio de paragem obrigatória!

Seguimos viagem rumo aos famosos Flaming Cliffs, a zona dos dinossauros, e também o local que iria marcar metade da nossa viagem! Para nossa surpresa, encontramos aqui, no meio do deserto, um ger camp com tudo o que precisavamos e muito mais: chuveiros de àgua quente, sanitas estilo ocidental, lavatórios (tudo com àgua corrente), campo de basquetebol, refeitório, e até um mini-museu com restos de ossos de dinossauros que o proprietário ia encontrando e orgulhosamente dispunha na sala. Um verdadeiro oásis! Aproveitei assim para tomar o meu segundo banho da viagem, e desenferrujar os ossos nas minhas técnicas já esquecidas do basquetebol.

Dunas Gigantes

Os dois dias seguintes eram naquele que é provavelmente o destino mais comum a quem se aventura pela Mongólia: as dunas gigantes. Quando chegamos ainda tivemos tempo para uma caminhada às dunas mais próximas, e para minha surpresa, o cão da familia acompanhou-me na minha caminhada de 10kms. Seria o meu companheiro inseraparável nos dois dias seguintes também!

Acordamos cedo e tinhamos os camelos à nossa espera para irmos dar uma volta. Os camelos são os castiços, muito pachorrentos, e parecem contentes de ir passear (para minha surpresa, estava com um pouco de receio que fossem abusados ou mal-tratados). Sentamo-nos entre bossas e lá vamos nós. Coisa que eu não sabia é que os camelos também correm, e isto magoa um pouco… Quando acabamos a volta mal nos aguentávamos em pé!

Descansámos um pouco e depois fomos até às dunas gigantes. Têm apenas 300m de altura, mas caramba, custa TANTO a subir!!!! Juro por tudo que foi a coisa mais dificil que fiz até hoje. Todos arfávamos na subida, e íamos com pés, mãos, joelhos, tudo. É frustante a subida, pois é um passo acima, e três abaixo… mas com preserverança e resistência, a coisa vai lá! E caramba, vale a pena

Esgotados, fomos dormir. Amanhã era dia de tomar banho na cidade 🙂

Tsagaan Suvraga e Baga Gazriin

Após uma breve paragem na cidade para tomar banho nos balneários públicos (onde toda a gente toma banho, porque as gers não têm àgua), seguimos rumo ao chamado “Ice Canyon”. Um riacho percorre o canhão, e entre ravinas lá fazemos o trekking mais fácil da viagem. A parte mais entusiasmante foi mesmo metermo-nos da carrinha e fazermos o riacho todo a conduzir. O nosso motorista era completamente varrido das ideias, e isso neste caso, foi excelente! Passamos a noite numa ger na cidade, e no dia seguinte rumamos a Baga Gazriin.

Baga Gazriin são umas rochas incríveis, em tons rosa. Apesar de curto, é um bom trekking, muito agradável, pela paisagem, acima de tudo. Depois disso ficamos com uma familia que ali tinha as gers bem perto, onde nos deram comida e bebida (e vodka!).

No dia seguinte seguimos viagem, para a nossa ultima noite. Encontramos umas rochas incriveis, com mais ruinas de mosteiros, e uma gruta! Tentámos explorar melhor, mas parecia não ir dar a lado nenhum.

A familia que nos acolheu aqui foi a mais hospitaleira de todas. Uma “ger de luxo”, com camas confortáveis, e vinham sempre verificar se o forno tinha lume. E tinham também o queijo de cabra mais incrivel que comi até hoje… Tão bom! Tinham centenas e centenas de cabras, e até tivemos tempo de experimentar ordenhar algumas 🙂

Genghiis Khaan

No regresso à capital, fizemos um desvio no percurso para visitar a ícónica estátua do Genghiis Khaan, o herói nacional. Uma estátua enorme (42m), em que podemos subir ao cavalo e admirar as vistas.

A Mongólia foi uma viagem incrível, que certamente todos nós deveríamos fazer. A próxima vez que voltar será já em época alta, para aproveitar tudo o que não consegui fazer agora, e para fazer melhor aquilo que não aperfeiçoei à primeira. E vou subir àquela duna em tempo record também 🙂

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