Dia 79, km 21737
CHINA

Datong

Chegar a Datong não foi propriamente fácil! A viagem foi feita de combóio, de UlaanBaatar até Jining. Até ao Verão de 2016 o combóio parava directamente em Datong, mas desde Agosto que a viagem para Beijing se tornou mais curta, através de uma nova linha que já não passa por aqui.

Em Erlian, na fronteira, o combóio para umas três horas, não só para os habituais costumes alfandegários, mas também para mudar as composições do combóio. E isto vale mesmo a pena ver! As composições do combóio são todas separadas num terminal, e depois encaixadas e elevadas para trocar as rodas, pois as linhas ferroviárias da China são diferentes das usadas na Mongólia e na Rússia. É um processo moroso mas curioso.

Saí em Jining com mais quatro turistas, dois dos quais eu já tinha conhecido no deserto de Gobi (o Daniel, inglês, e a Veve, italiana). Como íamos todos para Datong decidimos ir juntos. Saímos da estação e apanhamos um autocarro que seguia para Datong.

Em Datong fiquei num hostel pertíssimo da estação dos combóios, num edificio alto, o Green Island Youth Hostel. Super barato, no 5º andar, tinham um gatinho que era um doce, e deu para matar a saudade dos bicharocos (tenho tantas saudades do meu cão!!!).

Os principais motivos que levam os turistas a Datong são as Yungang Grottoes e o Xuankong Temple, e valem muito a pena a visita, mesmo que agora a famosa linha do transmongoliano já não passe por Datong! Ambos os locais são na periferia da cidade, por isso convém ficar hospedado por aqui pelo menos umas duas ou três noites (eu fiquei três).

O primeiro local que visitei foram as Yungang Grottoes. O autocarro para lá ficava mesmo à porta do hostel, e custa apenas 3¥, apesar da viagem durar 50 minutos. A entrada é um pouco mais cara (150¥), mas na China apesar das entradas serem caras, tudo é muito bem organizado e mantido, e os sitios são incríveis! E as Yungang Grottoes foram um perfeito exemplo disso. Eu pensava que ia apenas ver as icónicas estátuas esculpidas nas rochas, mas afinal aquilo tem um parque enorme à volta, com mais templos, tudo muito bem organizado e mantido. A minha visita prolongou-se por umas cinco horas, mas muito agradáveis. E as grutas são absolutamente incríveis!! No total são mais de 252 grutas com mais de 51000 budas, e o sitio tem cerca de 1500 anos. As grutas variam bastante, desde os estilos, tamanhos, algumas ainda têm cor (eram pintadas), outras mais destruídas, mas todas impressionantes. E o espaço à volta também é merecedor de um passeio para relaxar, principalmente para alguém que, como eu, venha da Mongólia, onde as árvores e o verde escasseiam.

No dia seguinte fui, juntamente com o Daniel e a Veve, ao Xuankong Temple, mais conhecido por “Hanging Temple”, por ser um templo “pendurado” numa rocha a 75m do chão. Aqui a brincadeira já fica mais cara, para lá temos que ir de táxi, que custa 80¥ por pessoa (mas fica a 60kms de Datong), e a entrada são 130¥. O templo também tem cerca de 1500 anos, e foi recentemente renovado – se dantes só se podia admirar esta obra arquitectónica por fora, hoje é possível passear dentro das pequenas salas. Não recomendado a quem tem medo de alturas, pois o templo é pequeno, totalmente em madeira, construído sem parafusos nem pregos, milagrosamente “pendurado” na rocha a 75m de altura! Os tectos são baixos, as varandas estreitas, e as escadas estreitas e íngremes.

No último dia fui ver Datong propriamente dita. A cidade foi recentemente destruída para construir uma nova, à semelhança da planta de há 500 anos atrás. Tem uma muralha circundante, completamente nova, que é possível visitar por dentro. Dentro da muralha, a “velha” cidade, toda em pedra escura e arquitectura tradicional, mas feita completamente de novo. Tem dois templos principais, e eu visitei o maior apenas, que tem uma das pagodas mais altas do país, toda em madeira e com construção de encaixe (sem pregos). A pagoda tem uma área subterrânea toda em cobre, a sala dos mil budas, e é impressionante! Do cimo da pagoda podemos ver Datong inteira: o centro, baixo, e para lá das muralhas, os arranha-céus. Algumas partes ainda vemos as partes destruídas da cidade, que ainda não foram reconstruídas. É um contraste incrível. Aqui conheci uma senhora chinesa, professora de inglês, que foi uma querida: fez-me um tour do templo, da cidade, e levou-me a jantar no maior e mais antigo restaurante de Datong, o impressionante FengLinGe, um restaurante que mais parece um palácio!! Todo iluminado de vermelho por fora, e por dentro, com inúmeras salas e salinhas, cada uma com um tema próprio, vários andares, espaço de música ao vivo, gaiolas com mandarins, fontes com peixes, budas, murais, e uma cozinha aberta onde podemos observar os cozinheiros a fazerem os especiais dumplings e forma de flor.

Adorei Datong, e acho que deve ser uma paragem obrigatória a todos os que visitam a China!

Pingyao

Depois de Datong fui até Pingyao, uma das poucas cidades ainda preservadas da China (que não foi destruída para reconstruir edifícios novos). É uma pequena cidade que tem pouco mais de 500 mil pessoas, que para a China é pouquíssimo!

É das cidades da China que realmente vale a pena conhecer, acima de tudo pelo seu estado genuíno. Foi aqui que nasceram os primeiros bancos e sistemas bancários, e a cidade tem inúmeros museus e casas-museu, e é possível visitar tudo com um bilhete único, que é válido por três dias e custa apenas 130¥.

É uma cidade pacata, pequena, que se visita bem a pé. Três dias são suficientes para aproveitar e conhecer toda a cidade. Eu fiquei na JiaXin Guesthouse, uma guesthouse familiar, super baratinha e com uma atenção ao cliente espectaculares. Cheguei a Pingyao num (doloroso) combóio nocturno, de Datong, às 5h30 da manhã, e o dono da guesthouse foi-me buscar à estação de carro. Servem refeições locais e caseiras, e ajudam em tudo o que é necessário, e no dia que me fui embora ainda me ofereceram uma garrafa de sumo local, “para a viagem”. Recomendado! 🙂

Beijing

Depois de Pingyao ganhei finalmente coragem e fui até à caótica Pequim! Fiquei por aqui uma semana, e foi sempre non-stop!

Logo nos primeiros minutos quando cheguei conheci um rapaz que estava no mesmo dormitório que eu, o Dominick, com quem fui até ao trendy 978 Art District. Era 11 de Setembro, e aqui na China nessa data celebra-se o “Singles Day”, por isso havia montes de promoções nos bares. Jantámos, e depois de jantar fomos para outro bar, onde conhecemos um grupo de expats super animado, e daí seguímos para um dos clubs da berra de Pequim, o Dada. E às 5 da manhã, taxi para casa, ainda nem tinha aberto a mala!

No dia seguinte aproveitei para conhecer o Wangfujing Street Food Market, o famoso mercado onde se vendem coisas tão exóticas como escaravelhos, escorpiões ou até estrelas do mar fritas. O resto do dia foi passado na lanzeira (leia-se ressaca).

Nos dias seguintes, conheci mais pessoas: o Gabriel, a Joannie e a Emily, o Marques e o Uoscar; e revi muitas mais: a Marion, a Inga, o Florian, o Jussi e o Anssi que conheci em UlaanBaatar, e o Stefano que conheci em Novosibirsk, e outros tantos. Beijing tornou-se num grande ponto de encontro de amigos não de longa data, mas de longos kms, unidos por uma irmandade vagabunda daquelas que só quem anda na estrada é que conhece.

Aventurei-me à Grande Muralha da China, paragem obrigatória a quem visita a China, com o Gabriel, a Joannie, o Marques e o Uoscar. Uma odisseia só para chegar lá: metro até Dongzhimen, autocarro até algures perto de Mutianyu (16¥), depois um “táxi” até Mutianyu (10¥). Em Mutianyu há que comprar os bilhetes de acesso (45¥), apanhar outro shuttle bus e finalmente começar a caminhada acima! Como não queríamos gastar muito dinheiro optámos por esta rota, mais custosas, mas muito mais barata. Evitámos também a boleia do teleférico até ao topo da muralha (100¥) e fomos a pé. Íamos morrendo, mas vale bem a pena! Esta parte da muralha tem cerca de 20 torreões restaurados. Para os mais resistentes, podem ir a correr até uma das extremidades (nós fomos até ao nº20, a escada de acesso que escolhemos levou-nos até ao torreão nº11, ou seja, a meio caminho) e ver a muralha original (completamente desfeita, mas incrível). Há só que ter em atenção o tempo, e fazer tudo em tempo record, ou seja, voltar antes da hora de fecho da Muralha (e do ultimo shuttle bus).

Além da muralha visitámos ainda a Cidade Proibida, o Lama Temple (o meu favorito, por ser o mais genuíno), o Pearl Market (dos produtos genuine fake!), inúmeros parques, bares, restaurantes e afins. Numa das noites fomos todos comer o famoso Pato à Pequim, imperdível e delicioso.

No fim, Pequim não pareceu ser a cidade poluída dos 20 milhões de pessoas que muito se anuncia: tem tanto de caótico como de cozy!

Dandong

Pelo meio da minha visita à China fiz uma visita à Coreia do Norte. Daí a minha visita rápida a Dandong, de onde não resultaram nenhuns registos em particular. É uma cidade relativamente grande (2.6 milhões de pessoas), com o rio Yalu a separar a cidade da Coreia do Norte. Fui com a Marion, mas estávamos tão estafadas da atarefada estadia em Pequim e a longa viagem de combóio que aterramos no hotel e acordámos na manhã seguinte para apanhar o combóio cedo para Pyongyang. Na volta já não paramos. Para além da ponte da Amizade, bombardeada pelos Americanos em 1951, e que é possível visitar hoje em dia, também é possível visitar em Dandong a Grande Muralha da China, que termina aqui o seu eixo mais a Este (Hushan Great Wall)

Dalian

Na volta da Coreia do Norte fomos (eu e a Marion) directas até Dalian. Na verdade, eu procurava as praias com plankton, mas em vez disso encontramos uma cidade super amistosa, limpa, sem poluição, com traços arquitectónicos bem diferentes dos restantes que vimos pela China, mais pela influência que esta cidade teve com ocupação Japonesa, Russa, Chinesa, dando-lhe características únicas. As hospedagens aqui ficam super-baratas, e no verão tem três zonas costeiras com boas praias que vale a pena explorar (infelizmente fomos off-season e apenas duas noites!). A voltar!

Zhangjiajie

De Dalian a Zhangjiajie foi uma aventura. Querendo sempre manter as coisas dentro do budget e dos nossos tempos (continuo com a Marion!), procuramos a melhor solução. Fomos de avião até Changsha, onde passamos a noite naquele que foi provavelmente o pior hostel onde ficamos na nossa vida inteira: num 5º andar de um edifício abandonado, um apartamento sem recepção onde todos fumavam na cama, não limpo e que tresandava por todos os lados. Era tarde, e precisávamos mesmo de um sitio para descansar, por isso ficamos por aqui. De manhã acordamos e fomos para a estação dos combóios onde finalmente iniciamos o nosso ultimo trajecto até Zhangjiajie.

Zhangjiajie é tão incrível como parece, como dizem, e muito para além disso. Vemos a paisagem esculpir-se enquanto chegamos, e montanhas mágicas começam a formar-se perante os nossos olhos. A sede de explorar aumenta a casa metro, segundo, a cada momento que inspiramos e expiramos.

O nosso primeiro hostel era em Zhangjiajie cidade (depois temos o Zhangjiajie National Park, que fica a uns 40 kms). Estávamos encantadas com a montanha mágica de Tianmen Mountain, e queríamos mesmo explorá-la. Sabíamos que esta ia ser a nossa parada mais cara, mas também aquela que mais valeria a pena. O Zhangjiajie National Park corta as entradas para metade do preço a 1 de Dezembro, e queríamos esperar até lá pois a poupança valia a pena.

Na primeira manhã acordámos entusiasmadíssimas!!!! Preparamos tudo e quando íamos a sair de casa… chovia a cântaros 🙁 Não via chuva há dias, semanas, talvez até meses?! Mais desanimadas lá fomos buscar as nossas protecções da chuva e fomos rumo à entrada da Tianmen Mountain.

As estradas estavam completamente alagadas. Quando chegamos à entrada encontramos um casal, também eles de capa e encharcados, que nos disse que o parque estava fechado por razões de segurança (dadas as condições meteorológicas). Abortámos missão e fomos os quatro para um bar beber cervejas e falar de viagens, que é tão bom ou melhor que ver a montanha 🙂

No dia seguinte ainda chovia. Fizemos nova tentativa. Hoje o parque estaria aberto, incluindo as famosas pontes de vidro, uma das atrações principais da montanha, e que trazem milhões de turistas a esta zona todos os anos. Contudo, o teleférico, conhecido por ser o mais longo e mais inclinado do mundo (7.5kms a 70º), só estava a funcionar a partir de metade. A primeira metade seria feita de shuttle bus, e por isso havia um desconto no bilhete, 209¥ em vez dos habituais 253¥. 

A montanha é um sitio de poderes mágicos para a cultura chinesa, e a sua abertura natural (Tianmen Cave) a mais alta do mundo. Ao invés do teleférico, é possível chegar ao topo pelos 11kms de estrada, com 99 curvas, e chegar à Tianmen Cave subindo 999 degraus. Na cultura chinesa o 9 é o número mais perto da perfeição, daí a estar tão associado com a Tianmen Mountain.

O melhor percurso para fazer Tianmen Mountain inteira num dia:

  • apanhar o teleférico até ao topo;
  • caminhar o topo da montanha são cerca de 7kms. O melhor é fazer isto no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio: começar por Este. Os caminhos das extremidades são os melhores, pois são os que têm as pontes de vidro e as vistas mais espectaculares;
  • depois da ponte de vidro do lado Oeste, têm umas escadas rolantes que vos levam à Tianmen Cave. Fecham às 16h, por isso cheguem antes 🙂
  • depois de verem a Tianmen Cave, desçam os 999 degraus (é muito melhor descê-los que subir!);
  • estão perto da middle station: apanhem o autocarro de volta à base 🙂

Vista Tianmen Mountain, no dia seguinte seguimos para o Zhangjiajie National Park. Já no dia 1 de Dezembro, onde o preço era 139¥ em vez dos habituais 248¥. Em relação aos preços: o bilhete é pessoal e intransmissível, válido por 4 dias, e inclui todos os shuttle buses dentro do parque mas exclui: Bailong Elevator 72¥, Yellow Stone Village Cable Car 65¥, Tianzi Mountain 67¥, Yangjiajie Cable Car 67¥ e o Ten-Mile Gallery Tourist Train 38¥. De todas estas coisas, o mais espectacular de todos, e que vale mesmo a pena, é sem dúvida o Tianzi Mountain Cable Car, e só para descer (one-way), pois passa mesmo no meio das montanhas de “Pandora“, inspiração do filme Avatar de James Cameron. A melhor forma de visitar o parque é no sentido dos ponteiros do relógio (idealmente para quem entra por Wulingyuan). Há vários sitios onde se pode ficar hospedado dentro do parque, e para todos os bolsos!

No último dia em Zhangjiajie visitámos o Baofeng Lake, não tão popular mas sem dúvida não menos espectacular! A entrada são apenas 77¥, e inclui o passeio de barco pelo lago. A visita total ronda as 2 / 3 horas (depende do passo): sobe-se um pouco a estrada até ver o sinal para o lago, e aí entramos para a montanha. Esta é uma zona também cheia de macacos, por isso há que ter cuidado que eles por vezes roubam comida (ou até as cameras!). Quando chegamos ao lago a expressão é transversal a todas as línguas: WOW! Os barcos rasos levam o grupo num passeio à volta do lado, e pelo caminho dois cantores, um homem e uma mulher, em casas diferentes e envergando as vestes tradicionais, cantam para nós, e é maravilhoso de se ouvir. No lago há cisnes pretos, que eu nunca tinha visto. Mas cuidado que também estes são agressivos! No final do passeio desce-se a montanha pelo lado inverso, até chegarmos à imponente queda de água, onde temos que batalhar com os muitos turistas chineses por um espacinho para a nossa selfie 🙂

Zhangjiajie é sem dúvida O sitio a visitar na China!

Kunming

Terminei a minha viagem pela China em Kunming, de onde tinha voo marcado para Nova Delhi, na Índia.

Infelizmente não vi a cidade: fiquei doente quando cheguei (um misto de comida e altitude), e tive que ir para o hospital de urgência. Como nota posso apenas dizer que fui muito bem tratada no hospital na China, e que as contas são surpreendentemente baixas. No hospital internacional (privado), paguei apenas 55.30¥ por uma urgência, 133.70¥ por todos os exames e análises e 32¥ pela medicação. Nota positiva também para o meu fantástico seguro de viagem (Globetrekkers, da Globelink), que contactei de imediato e foram super rápidos a assistir-me e a devolver-me não só o dinheiro dos tratamentos, como também do voo que entretanto perdi, bem como da reserva extra que tive que pagar em Kunming e também a que perdi na China. Nunca tinha activado um seguro antes e a minha experiência com a Globelink correu maravilhosamente bem. Recomendo!!!

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