Dia 65, km 17848
COREIA DO NORTE

O dia que decidi conhecer a Coreia do Norte

Toda a gente me pergunta o que me levou a querer visitar a Coreia do Norte. A verdade, é que para além de ser uma fã enorme do livro “Dentro do Segredo“, do José Luis Peixoto, sempre tive uma enorme curiosidade em conhecer por dentro aquilo de que todos falam, e de poder viver na primeira pessoa aquilo que muitos só lêem em noticias.

Estava na Mongólia quando a ideia começou a tomar maior controlo sobre mim, e depois de alguma pesquisa, lá encontrei uma tour organizada que, apesar de ser completamente fora do meu orçamento para a viagem, era uma oportunidade única, visto estar aqui tão perto… E também se tiver que escolher entre completar a circum-navegação ao globo, ou poder visitar agora um dos países mais secretos do mundo bem… a resposta está à vista!

Para quem não sabe, apesar de limitadas, as visitas à Coreia do Norte são bem possiveis, contudo, têm que sempre ser acompanhadas por dois oficiais do governo norte-coreano. Posto isto, pode-se visitar o país sozinho (mas devidamente acompanhado pelos oficiais), ou em grupo. A opção de visita em grupo alivia bastante as despesas financeiras, e também um pouco a pressão psicológica, visto que não há muito com quem se possa falar.

Quando cheguei à Coreia do Norte uma das primeiras frases que a nossa guia nos disse foi que a “Coreia do Norte é preciso ver para crer“. E eu não poderia estar mais de acordo!

Bem-vindos a Democratic People’s Republic of Korea (DPRK)!

At the Kumsusan Palace of the Sun, the Mausoleum
A vida na Coreia do Norte

Durante a nossa viagem tivemos oportunidade de participar e testemunhar (dentro das devidas e esperadas restrições, claro) como é a vida na Coreia do Norte. Visitamos museus e bibliotecas, escolas, parques, pontos de referência, andámos de metro e vimos espectáculos. Foram cinco dias preenchidos de uma programação variada, que nos permitiu ver mais de perto como é a vida num dos países mais secretos do Mundo.

Para começar: sim, claro que há restrições, e claro que não vemos tudo com a mesma liberdade que nos é permitida em outros países. Contudo, é um país que está, neste momento, mais aberto e receptivo que há uns anos atrás. Os nossos guias oficiais (Mr Kim, Miss Kim, Mr. Kim, Mrs. Kim… ah, e também o Mr. Han e o Mr. Song! – 6 no total, para 36 visitantes) responderam a todas as nossas perguntas, às vezes directa e outras vezes indirectamente, mas nunca nos deixaram sem resposta, e isso é de valor.

Viajar até à Coreia do Norte é uma viagem que transcende o conhecimento cultural, é quase como viajar no tempo.

Aquilo que achei mais impressionante, foi simplesmente a vida nas ruas. Tão diferente da realidade a que estamos habituados! Num país que não tem consumismo, não tem marketing nem publicidade (porque a propaganda não conta), quando entramos em Pyongyang é quase como se entrássemos numa utopia: uma metrópole sem anúncios, sem lojas, onde as pessoas circulam no metro sem estarem curvadas e centradas nos telemóveis. E isso é, por si só, incrível.

De metro em Pyongyang

Uma viagem de metro pode não ser muito para muita gente, mas uma viagem de metro na Coreia do Norte tem muito que se lhe diga. Percorremos seis paragens, e vimos três estações. Deu para perceber que nem todas as estações são tão grandiosas quanto estas, mas que as que visitámos têm a sua beleza, não podemos negar. Assemelhando-se às estações do metro de Moscovo, o metro de Pyongyang gaba-se ainda de ter a linha mais profunda do mundo, com mais de 100m de profundidade. Os comboios são mais pequenos, e indubitavelmente mais lentos, mas não menos castiços. De um verde azeitona e vermelho comuna, os seus interiores em pele e madeira, a média luz, fazem com que se tornem mais orgânicos que os nossos modernizados metalizados.

Na grande ala, há jornais emoldurados para a por a leitura em dia. Em que dia, não sabemos, mas é em dia. Grandes retratos em mosaico ou pintados à mão dos grandes líderes, com paisagens coloridas nas laterais. Os grandes candelabros arrematam a grandiosidade do metro mais profundo do mundo.

Biblioteca: Grand People’s Study House

Deixando o mais profundo metro do mundo, passamos então para a maior biblioteca do mundo. Sim, desenganem-se meus caros, esta biblioteca tem nada mais nada menos que: 100.000m2, 600 salas e 30 milhões de livros, incluindo os que Kim Jong-Il escreveu (como o famoso “The Works“), e que eu tanto queria comprar e não deu (por causa do tamanho, afinal são 50 volumes de capa rija!).

Aqui visitamos quatro salas, assistimos a duas aulas, e dançámos e cantámos ao som de “Yellow Submarine“, dos The Beatles e lemos clássicos como o Harry Potter, livros escolhidos de forma totalmente aleatória pela recepcionista que nos recebeu.

A biblioteca foi construída para celebrar o 70º aniversário de Kim Jong-Il, e à entrada encontramos uma gigantesca estátua do próprio, sentado, com um dos jornais mais populares da DPRK na mão, o Rodong Sinmun, que é o mesmo jornal que encontramos emoldurado nas estações de metro.

Pyongyang’s International Football School

A Escola Internacional de Futebol de Pyongyang abriu ao publico em 2014, e nós tivemos a sorte de a poder visitar. Aqui ensina-se não só futebol, mas também inglês e outras aulas teóricas e técnicas. Alguns dos melhores alunos têm ainda a sorte e o privilégio de poder viajar para conhecer outras escolas em Espanha, França ou Itália.

Junto à escola fica o Estádio Rungrado 1º de Maio (Rungrado 1st of May Stadium), o aclamado maior estádio do mundo, que ocupa quase 21 hectares e senta 114000 espectadores.

Restaurantes na Coreia do Norte

Uma das coisas mais curiosas e interessantes que a Coreia do Norte oferece aos seus visitantes, é a experiência nos restaurantes. São servidos inúmeros pratos por refeição, e em quase todos, as empregadas cantam para nós entre refeições. A canção mais popular é a música que usei para o video da Coreia do Norte, 반갑습니다 (“Nice to Meet You“, Prazer em Conhecer-te). Do kimchi ao hotpot, provamos de tudo o que a Coreia do Norte tem, mas a raínha foi a cerveja local, Taedonggang, cujo nome vem do rio que atravessa Pyongyang, o rio Taedong. As garrafas têm 690ml, e a cerveja um teor alcóolico de 5,5º, que faz com que seja das mais fortes que provamos nesta viagem desde a Rússia!

Mangyongdae Children’s Palace

O Mangyongdae foi a maior surpresa desta viagem! Por dentro deste enorme edificio sombrio, estão coloridas salas repletas de crianças super talentosas. Tivemos a honra de assistir a um enorme espectáculo de quase duas horas destes miúdos, que dançaram, cantaram, tocaram e fizeram as maiores performances malabaristas que alguma vez vimos. A sala estava completamente cheia, e reservaram para nós os lugares em duas filas bem centrais. Dois dos nossos colegas tiveram ainda a sorte de subir ao palco e fazer parte de um dos números, foi bastante engraçado! A acompanhar as performances das crianças, por vezes acompanhavam num grande écran por trás do palco imagens relativas aos temas representados, e toda a plateia aplaudia freneticamente sempre que surgiam as imagens dos grandes líderes. Para nós isto foi um pouco confuso de inicio, pois os miúdos fizeram actuações absolutamente exímias, e não tinham aplausos tão emotivos quanto aqueles. Mas compreende-se que afinal, os grandes líderes criaram uma grande nação, que é incomparável a performances criativas por parte das crianças.

The DMZ – Korean Demilitarized Zone

A DMZ foi talvez “o sitio onde me caiu a ficha”, pois foi onde fiz as perguntas mais impróprias. Fui repreendida por duas vezes, e uma delas foi por simplesmente, sorrir na mesa onde foi assinado o tratado de paz entre Coreias. Justifiquei-me então que tenho a sorte de ter nascido num país sem história de guerras, onde o humor e a sátira são qualidades transversais à maioria dos cidadãos, mas logo percebi que o melhor era mesmo calar-me. Recompus a minha postura, e limitei-me a observar.

A DMZ é uma linha, que tem 2kms para cada lado (Coreia do Norte e Coreia do Sul) onde os militares não podem intervir. Foi criada pela Coreia do Norte, China e pelas Nações Unidas em 1953. Por vezes, os visitantes têm a oportunidade de visitar a DMZ do lado da Coreia do Sul, mas infelizmente, não foi o nosso caso. Para nós, estava fechado nesse dia.

Fora de Pyongyang: o combóio, Kaesong e Sariwon

Fora de Pyongyyang, visitamos mais duas cidades: Kaesong, perto da DMZ, onde visitamos o Koryo Museum, e Sariwon, a 30 minutos de Pyongyang, onde visitamos a Jang Chon Cooperative farm, a quinta onde se produz arroz às toneladas, e que reúne a melhor colecção de retratos dos grandes líderes, na minha opinião (ver fim do video que publiquei no inicio deste post).

O que não aparece

O melhor da visita à Coreia do Norte não está documentado, e foi o Mausoleum. Este foi provavelmente o ponto alto da nossa visita à Coreia do Norte, visitar a morada final de Kim Jong-Il e de Kim Il-Sung, ver os seus corpos, os seus pertences, mas acima de tudo, ver como toda a população lida com a sua perda. Foi nesta visita, que nos sentimos mais “Coreanos”, pois tínhamos que obedecer e cumprir todas as suas regras.

Tudo começa com a indumentária: temos que nos vestir o mais formais possível, homens de fato e gravata, e as senhoras tapadas, com vestidos ou roupa formal decente. As mulheres coreanas vestem-se com as roupas tradicionais, largos vestidos de saia comprida, rodada, muito coloridos, e os homens de fato. Do nosso grupo, todos nos vestimos no melhor possível, e eu até comprei umas botas na China, propositadamente para o grande dia: umas Doc Martens pretas de um mercado cujo slogan é “genuine fakes“.

Para visitarmos o Mausoleum, não podemos levar nada connosco. Absolutamente nada, nem a chave do quarto de hotel. Contudo, seis de nós podiam levar cameras, para fotografarmos o jardim e tirarmos uma fotografia de grupo. Felizmente fui uma das contempladas, e consegui que ficássemos com uma fotografia com o grupo completo e os respectivos guias, é a primeira fotografia publicada neste post (ver acima).

Quando chegamos ao edifício, podemos deixar casacos num bengaleiro. Deixei também a minha câmera, pois são proibidíssimas dentro do edifício. Passamos depois por umas roldanas de relva sintética que nos lavam as solas dos sapatos, e depois passamos por um tapete vermelho para secar os pés. Depois disso, começa a compostura, e passamos a movermo-nos como os norte-coreanos: em bloco, com passo acertado, filas de quatro. Longas escadas e passadeiras rolantes levam-nos lentamente ao destino, a uma velocidade lenta o suficiente para podermos digerir todos os retratos dos Kim’s sorridentes que decoram as paredes, e nos recordam do regozijo que é governar a Coreia do Norte.

Antes de entrarmos em cada uma das salas que têm os corpos, temos que passar por um portal, semelhante aos do controlo de raio-x dos aeroportos, mas que em vez de nos scannearem com raios invisíveis, nos sopram com grandes tubos de ar violento: é para tirar de nós as impurezas que trazemos lá de fora, pois não se querem impurezas nas salas que preservam os corpos dos grandes líderes. Para nos dirigirmos aos líderes, a nossa postura tem que ser exímia: aproximamo-nos, em filas de quatro, e fazemos três vénias – uma nos pés, e uma de cada lado. “Nunca na cabeça!“, relembram-nos os guias. Enquanto aguardávamos a nossa vez, eu ia virando os olhos para absorver ao máximo o que não podia registar com a minha camera. E observava, incrédula, aos visitantes que se amparavam uns aos outros enquanto choravam. Se isto fosse um plano fechado, eu diria que o grande líder teria morrido à 20 minutos, e não há 22 anos. Já muito tinha lido sobre este momento, mas por muito que se leia, nada nos prepara para a realidade. “O grande líder é o pai de todas as nossas familias”, disse-me um dia a nossa guia, Miss Kim.

Depois de vermos o corpo, cada um deles tem mais duas salas: uma dedicada às medalhas e condecorações recebidas de todo o mundo, e outra com os pertences pessoais, como carros, barcos, e até a carruagem de combóio onde Kim Il-Sung morreu enquanto “assinava papéis importantes de trabalho“. É numa destas salas que um dos guias me chama para contemplar a quantidade de medalhas que Portugal havia enviado aos grandes líderes. Contei umas quinze, entre as quais medalhas tão prestigiosas como o aniversário da cidade de Cascais ou do Cartaxo. Não sabia como reagir, por isso apenas lhes sorri.

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